Um Lugar Onde Não Existe Procrastinação

Um Lugar Sem Procrastinação

O que aprendi numa comunidade agrícola japonesa

Yuba Colheita de Hanaume Camila

Um intercâmbio cultural inusitado. É com japoneses, mas não é no Japão. Yuba é uma comunidade japonesa agrícola que fica no interior do Estado de São Paulo.

“Cultivar a terra, orar e apreciar as artes” são os preceitos que o fundador Isamu Yuba estabeleceu, em 1935.

Yuba é quase que parada obrigatória dos mochileiros japoneses que vêm ao Brasil. Eles vão para Yuba porque é um lugar especial e porque sentem falta do Japão.

Indo para o festival de Obon com o pessoal de Yuba
Indo para o festival de Obon com o pessoal de Yuba

E esses foram os motivos que me fizeram ir para lá também…

Você deve estar se perguntando se eu tenho descendência japonesa. A resposta é não. Na verdade, minha descendência é bem brasileira. Minha mãe é do interior de São Paulo e é empregada doméstica. Meu pai não me assumiu. Tem coisa mais brasileira que isso?

E por que diabos eu fui me interessar pela cultura japonesa?

Na época do vestibular, passei em Publicidade e Propaganda e em Letras. Eu podia ter trabalhado com publicidade, ganhado dinheiro e ido pro Japão. Mas não, escolhi Letras — Japonês.

E por quê? Era um mistério até para mim.

Mas depois de ter ido para Yuba, consegui achar umas respostas.

E como faz para entrar em Yuba? É preciso ligar e justificar seu desejo. Você pode ir como visitante ou trocar hospedagem por trabalho. Tem que informar dia de chegada e saída.

Eu escolhi trocar hospedagem por trabalho.

Peguei ônibus na Barra Funda às 21 horas e cheguei lá na comunidade por volta das 8:30.

Agora imagina uma comunidade onde todo mundo faz cerimônia do chá, treina caligrafia, toca shamisen e pratica artes marciais.
Essa não é Yuba. (Aliás, se você conhece uma comunidade assim, me fala??)

Yuba é uma comunidade agrícola. Eles têm plantação de goiaba, quiabo, soja, arroz…

E antes que você pergunte…. Não, não é orgânico.

Orgânico só é o que eles comem.

E eles comem bem.

Shiitake, tempura, gohan, tsukemono, salada: almoço em Yuba.
Shiitake, tempura, gohan, tsukemono, salada: almoço em Yuba.

Todos os dias as refeições têm hora certa. Café às 6h, almoço às 11h e janta às 18h. Todas as refeições são precedidas de uma oração, sendo que a primeira é um Pai Nosso (em japonês) e as outras são como que “1 minuto de silêncio”.

Uma vez puxei o celular durante uma refeição e uma pessoa me chamou a atenção. Achei bom.

O lugar tem crianças, mas a maioria das pessoas passa dos 40 anos. A maioria dos jovens trabalha ou estuda fora da comunidade, alguns estão no Japão, outros em São Paulo. Alguns montaram seus próprios negócios…

Em Yuba só se fala japonês.

Alguns deles falam português, mas geralmente são eles que falam com você e não você com eles.

Como fui para trabalhar, passava a maior parte do tempo com japonesas mochileiras. Fiquei no mesmo quarto que elas, ficávamos na mesma mesa, fazíamos o mesmo trabalho.

Todas elas conversavam comigo e faziam todo tipo de perguntas. Os assuntos mais comuns eram viagens, comida e experiências que cada uma teve ou queria ter.

Nem sempre eu conseguia acompanhar as conversas delas.

Elas tinham paciência para me explicar as palavras que eu não entendia.

Festa Julina em Yuba com azamiga Hitomi e Suika
Festa Julina em Yuba com azamiga Hitomi e Suika
Festa Julina em Yuba com azamiga Hitomi e Suika

E aí eu fiquei mais certa de japonês é uma língua de outro planeta. Parece que tem muitas palavras parecidas, muitas palavras encurtadas, muitas onomatopéias.

Mas tudo bem.

Aos poucos me desapeguei da ideia de querer entender tudo o que elas falavam.

Percebi que não tenho uma gana de falar japonês fluentemente.

E estando lá percebi que o que me tocava mais profundamente não era a língua japonesa, mas a energia dos japoneses.

Quanto mais eu a percebia, mais queria senti-la.

Porque sentia algo bom, uma conexão maior comigo.

Aí percebi que era uma energia de estado de fluxo.

Fluxo.

De silêncio, de trabalho, de conversa, de risada. Foco no momento presente.

Eu não sabia o que era isso de fato até ter trabalhado com japoneses. Esqueça o celular, a pausa, a procrastinação. É fluxo. É trabalho trabalho trabalho. Todo mundo igual, todo mundo no mesmo movimento. Pode ser que tenha conversas sim. Mas conversas mais com uma função de manter o fluxo, leves trocas de impressões, um elogiando o outro, um se mostrando impressionado pelo outro.

Às 7hs em ponto todo mundo está nos seus postos de trabalho.

Todo mundo com bota de plástico, calça jeans velha, camisa xadrez, lenço, chapéu, é hora de ir trabalhar.

A rotina podia ser subir no trator e ir fazer colheita de quiabo ou ir para a plantação de goiaba colocar papeizinhos em torno das goiabas novas para que os passarinhos não as comam ou ir fazer geleia ou… Você entendeu, né?

Existe uma palavra japonesa que é gaman suru, significa aguentar. Por exemplo, você está lá no meio da roça e sente vontade de ir ao banheiro. Mas provavelmente seus companheiros também sentem. Mas não vão, certo? E quanto mais você se dedica ao trabalho, mais rápido todos poderão acabar e todos poderão ir ao banheiro. Então, o que você faz? Gaman.

Quando entrava nesse estado de fluxo forte no trabalho com os japoneses, me parecia que uma energia puxava o grupo para que isso acontecesse e eu tinha que agir ali de qualquer jeito.

Eu demorava para entrar no ritmo deles, mas tinha que reagir de qualquer forma.

Era o grupo, o grupo, o grupo.

E quando o trabalho acabava vinha um alívio coletivo, o respirar o coletivo o relaxamento coletivo e as risadas.

Um descansar coletivo, uma dormência coletiva.

Uma coisa que sentia falta lá era de fazer atividades físicas intensas.

Pingue-pongue com o Tomoro-san
Pingue-pongue com o Tomoro-san

(Ok, de vez em quando rolava um pingue-pongue.)

O desafiador de estar numa outra cultura é que você perde um pouco da noção de como agir.

Quando escolher entre o grupo e o eu? Quando e como tomar iniciativa?

É preciso observar bem antes de tomar alguma atitude que possa comprometer o grupo.

Por exemplo, é costume japonês que os chefes convidem os subordinados para beber.

Na comunidade não havia chefes, mas pessoas mais velhas.

Um dia, fomos convidadas para um jantar na casa de um deles.

Nesse dia, vi um costume que nunca tinha visto antes.

Sempre que uma pessoa mais velha falava, as meninas paravam de comer e colocavam os hashi sobre a tigela.

Não acho isso nem certo nem errado.

Na verdade, me fascina como nós brasileiros somos diferentes dos japoneses.

Hoje vejo que sou atraída por disciplina e pelo trabalho em grupo. A cultura japonesa me satisfaz nesse sentido!

E também amo a liberdade e o individualismo. Ser brasileira é tudo de bom nesse sentido!

Espero voltar para Yuba e poder continuar essa jornada nipo-brasileira até o fim da vida.


Para saber mais sobre a os japoneses a partir de uma visão antropológica séria e profunda, recomendo muito o livro O Crisântemo e a Espada, da Ruth Benedict.


💡
Clica “gostei” se você gostou. 👍Quando você clica “gostei”, comenta ou compartilha, você está participando. Quando você participa,  você simplesmente patrocina esse blog, você está dizendo para o Google que ele deve expandir de alguma forma essa mensagem para mais pessoas, então ele fica mais propenso a dividir esse tipo de mensagem com mais pessoas e faz com que esse projeto atinja mais pessoas e faz com que eu tenha mais motivação pra escrever esses posts pra você. Te encontro no próximo post! 🙏
kamira

 

 

Comments

comments

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*