Thiago Halleck: a Cultura Pop Japonesa como Referência na Música e na Arte

Thiago Halleck Tatuador Projeto Revista Língua e Cultura Japonesa

Thiago Halleck Banda Projeto Revista Cultura Japonesa

Thiago Halleck é tatuador, músico e agitador cultural na cena do Rio de Janeiro. O mesmo Thiago Halleck é fã de Akira Kurosawa, Jaspion, Yû Yû Hakushô e muitas outras coisas da cultura japonesa.

Conheci ele há 10 anos num evento de anime e me lembro dele falando sobre o Mr Catra era cantor de soul/funk clássico antes de cantar funk carioca. Nessa hora, fiquei surpresa porque não esperava ouvir alguém falando de Mr Catra num evento de anime, ainda mais ele, que era músico (ele tocava baixo numa banda chamada Bakuhatsu).

E desse dia até hoje, o Thiago ainda me impressiona pela sua diversidade cultural e personalidade.

Nessa entrevista, Thiago fala sobre os animes e tokusatsus que passavam na TV Manchete e o que o atraía neles, valores sociais japoneses e brasileiros interessantes e os não tão interessantes, que lugares visitar no Japão, carreira de tatuador e músico, intercâmbio cultural entre brasileiros e japoneses e muito mais.

Por Camila Eleuterio

Identidade

RE: Quem é Thiago Halleck? Fale um pouco da sua história, por favor.
Thiago Thiago Halleck é um cara do Rio de Janeiro, tatuador, baixista e que vai passar dos 30 em breve.
RE: Assim que comecei a gostar de cultura japonesa, adotei o nickname “Kamira”, que é o meu nome em japonês. Você já fez isso? Rsrs
Thiago Sim, acho que a maioria de nós já fez isso, né? Eu sempre preferi os personagens enfezados e de cabelos pro alto. Na época, eu estava descobrindo Dragon Ball Z, através de alguns movies que passavam nos eventos de anime daqui e, quando vi o Vegeta, fiquei louco. Até hoje tem gente que me chama assim.
RE: Você já estudou japonês? Se sim, o que achou fácil de aprender e o que achou difícil?
Thiago Estudei um tempo, mas larguei pra poder assumir outras prioridades. A parte mais difícil é decorar aquela quantidade de caracteres, mas eu etiquetava todas as coisas dentro de casa com hiraganas e katakanas e quando eu batia o olho, já via aquela coisa escrita em ambos os alfabetos. Aí, decorar se tornou fácil e natural. A parte da gramática eu achei bem tranquila, na verdade. Só que, hoje em dia, já esqueci de tudo hahahaha
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Zillion
Eu já assistia todos os tokusatsus da Rede Manchete e o primeiro anime que eu lembro de ter assistido foi Zillion e, depois, veio Cavaleiros. Acho que todas essas séries traziam questões morais que me contemplavam mais que as histórias ocidentais. Mesmo nos desenhos e quadrinhos americanos, quando aparecia um personagem japonês, ele era sempre o mais sinistro de todos.
RE: Conte um pouco sobre como a cultura japonesa começou a te interessar. Que fatos te levaram a gostar tanto de anime?
Thiago Não sei dizer bem, sempre fez parte da minha vida. Eu sempre gostei de desenhar, e sempre preferi ficar vendo desenho na TV, jogando videogame e lendo, ao invés de descer pra brincar com as outras crianças. Eu já assistia todos os tokusatsus da Rede Manchete e o primeiro anime que eu lembro de ter assistido foi Zillion e, depois, veio Cavaleiros. Acho que todas essas séries traziam questões morais que me contemplavam mais que as histórias ocidentais. Mesmo nos desenhos e quadrinhos americanos, quando aparecia um personagem japonês, ele era sempre o mais sinistro de todos.
Rainha Ahames, vilã do tokusatsu Changeman
Rainha Ahames, vilã do tokusatsu Changeman
RE: Como sua família reagiu a esse seu gosto? Falaram algo do tipo “ah, filho, vai jogar futebol…” ou foi tranquilo?
Thiago Eles sempre me apoiaram em tudo, não tenho o que falar disso.
RE: Você acha que seu gosto pela cultura japonesa tenha influenciado seu modo de pensar e ver o mundo?
Thiago Com toda a certeza do mundo. Eu não seria quem eu sou hoje se tivesse sido de outra forma.
Thiago Halleck Tatuador Entrevista Projeto Revista Língua Cultura Japonesa Camila Eleuterio Kuwabara
Yû Yû Hakushô
RE: Você acha que os valores japoneses são diferentes dos valores da sociedade brasileira?
Thiago Sim, principalmente em relação ao trabalho, senso de responsabilidade e vida em sociedade, acho que eles estão bem à nossa frente. Mas, por outro lado, acho que a individualidade e a satisfação pessoal sai sacrificada por toda essa rigidez.
Tatuagem feita por Thiago
Tatuagem feita por Thiago
RE: Outro dia vi no seu Facebook um comentário seu sobre uma paródia de tokusatsu, que você estava achando engraçada até que percebeu que é assim que os tokusatsu de hoje são. Os tokusatsu de hoje estão com menos qualidade do que os que a gente via? O que você acha que mudou?
Thiago Era uma paródia de anime, na verdade, chamada “Anime In Real Life – The Last Slice Of Pizza”. Atores reais encenavam como seria uma situação cotidiana se as pessoas falassem e agissem como num anime. O meu comentário foi “estava achando graça, até perceber que os tokusatsus de hoje estão exatamente assim”. Eu sou grande fã de tokusatsu, principalmente Kamen Rider, mas acho que, nas séries mais atuais, os personagens estão muito caricatos e afetados. Sei lá, só falta aparecer uma gota na testa deles. Acho que nos antigos, mesmo com toda a tosqueira, os personagens tinham uma postura menos escandalosa e mais séria. Eu preferia antes.
Thiago Halleck Anime Tatuagem Macross Projeto Revista Camila Eleuterio 2015 kamira

Macross, é um dos meus animes preferidos justamente porque foi o primeiro anime sobre robôs gigantes que não era sobre robôs gigantes. 

RE: Olhando para trás e tentando entender o motivo de eu gostar mais de desenho japonês do que dos americanos, sinto que a violência dos sentimentos e a crueza da realidade retratadas me atraíam muito. Mesmo num anime para meninas como Candy Candy, ela se ferrava muito e se ferrava se uma maneira real. O mesmo sinto que vale para sagas de ficção científica como Macross, que tinha como protagonista um cara arrogante. E além de tudo isso, eles ainda conseguiam se manter puros. Isso sempre me atraiu. Diferente dos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo que nunca explodiam de raiva ou choravam de tão contentes. Você também sente isso?
Thiago Engraçado você mencionar logo Macross, que é um dos meus animes preferidos justamente porque foi o primeiro anime sobre robôs gigantes que não era sobre robôs gigantes. É um drama de guerra muitíssimo bem construído. Aquela cena em que o Roy vai pra guerra e abre o coração com a Claudia foi muito impactante. Foi a primeira vez que eu percebi que mesmo o cara mais cabra-macho e badass podia sentir medo e ter os próprios dramas internos. Com certeza, explorar a humanidade dos personagens, heróis com falhas evilões com certas virtudes, é uma característica muito presente nos mangás e animes. Já nos quadrinhos e animações ocidentais, nem tanto, às vezes a gente vê, mas é uma coisa mais recente e pontual.
RE: Se você tivesse um filho, buscaria dar algum tipo de educação “nerd” para ele ou deixaria ele escolher?
Thiago Com certeza! Se ele não se interessar mesmo, não vou forçar a barra, mas vou fazer o máximo pra mostrar esse mundo pra ele.
Anri e Jaspion
RE: A partir do seu conhecimento de anime, cultura japonesa e também da própria convivência com japoneses (imagino que você tenha convivido com japoneses, mas me corrija se estiver errada, ok!), gostaria que você comentasse o que acha sobre a relação entre homens e mulheres na cultura japonesa. É diferente das relações brasileiras?
Thiago Eu sei que os japoneses são muito travados emocionalmente, sei que até hoje existem casamentos arranjados, sei que é uma sociedade bem patriarcal… Mas também já li e ouvi que, atualmente, muitas barreiras têm sido quebradas. Uma coisa que eu descobri faz poucos dias é que, lá, o homem trabalha e repassa todo o dinheiro pra mulher administrar, chegando a receber uma mesada dela. Não sei o que pensar, acho que são dois povos que operam em frequências diferentes mesmo. Eu vejo a sociedade japonesa como um formigueiro ou uma colméia, e até dentro do ambiente familiar as coisas parecem funcionar assim.

Trabalho

Thiago trabalhando

Thiago Halleck Tatuador Dragon Ball TatuagemClipboard07

RE: Você trabalha como tatuador. Tem algum tema japonês que você mais goste?

Thiago Adoro tatuar coisas relacionadas a anime, games, tokusatsus etc. Infelizmente, não é sempre que aparece. Recentemente, fiz um Pual em cima de uma Dragon Ball e também um Hakaider e fiquei superempolgado. Fora isso, alguns temas tradicionais me interessam bastante. Adoro tatuar hannyas, cerejeiras e aquele sapo de 3 patas. Mas tudo na tatuagem japonesa costuma ser muito grande e eu acabo tendendo a ficar entediado com trabalhos que demoram a ficar prontos hahaha
Ukiyo-e por Kuniyoshi de Tamatori
Ukiyo-e por Kuniyoshi de Tamatori Hime
RE: O que vem à sua cabeça quando ouve o termo “arte japonesa”?
Thiago Imagino música enka, teatro kabuki, tiozões de hakama pintando kanjis enormes no chão e aquelas telas tradicionais, com samurais, castelos, gueixas, polvos e…
Han'nya
Han’nya
RE: Faz alguma pesquisa de material ou técnicas artísticas japonesas?
Thiago Embora eu admire bastante, não me identifico com o estilo oriental tradicional em termos profissionais. Eventualmente, eu faço alguma coisa dentro do estilo e, em algum momento, vou buscar estudar mais essa área. Tem algumas coisas que eu acho bem interessantes, como a anatomia desses desenhos, que é bem elaborada e pouco convencional. Mas é um tipo muito estilizado de arte e o meu foco, atualmente, está em levar o meu traço para algo mais concreto. E tem o lance do tamanho, como eu já falei.
Thiago Halleck Tatuador
RE: Qual é a primeira lembrança da arte na sua vida? Como foi o seu percurso do artista-criador para o artista-empreendedor?
Thiago É algo tão presente na minha vida que eu mal consigo lembrar. Na minha família, todo mundo desenha ou faz música, é uma ligação muito forte que a gente tem com a arte. Eu desenho desde que me entendo por gente e, no final da minha adolescência, também comecei a tocar, primeiro baixo, depois guitarra, depois bateria e nunca mais parei com nenhum dos dois. A vida foi me levando por esses caminhos, quando fui fazer uma das minhas primeiras tatuagens com uma amiga, a Elisa Nobre (entreviste ela também, ela tem muito o que dizer hahaha) ela me sugeriu aprender a tatuar e eu pensei “Verdade! Posso ganhar dinheiro com isso e é tão legal que nem vou sentir que estou indo trabalhar”.
RE: Você pensa em ir para o Japão? Se sim, o que sente de fazer/ver/sentir por lá?
Estátua do Kamen Rider
Estátua do Kamen Rider
Thiago É o meu maior sonho! Acho que não conseguiria morar lá, mas tenho muita vontade de conhecer tudo. Mas tenho que ir com muito dinheiro pra gastar com tranqueiras nerds, materiais de desenho etc. Quero muito conhecer a estátua do Kamen Rider que foi a única coisa que sobrou inteira numa região devastada por um terremoto e que virou um símbolo de superação pra eles. E os templos, a parte histórica, o Museu de Hiroshima… Acho que tudo.
No Brasil, mesmo não havendo o mesmo incentivo à cultura, a gente se destaca lá fora pela pluralidade da nossa expressão artística, típica de um país colonizado como o nosso. 
RE: O que os artistas brasileiros podem ensinar para os japoneses?
Thiago Acho que todos os povos têm muito o que ensinar uns aos outros. O Brasil e o Japão são países com artistas brilhantes. Alguns dos melhores tatuadores do mundo são brasileiros ou japoneses. Eles têm aquela coisa tradicional que é a base de tudo, mas também surpreendem na hora de inovar. No Brasil, mesmo não havendo o mesmo incentivo à cultura, a gente se destaca lá fora pela pluralidade da nossa expressão artística, típica de um país colonizado como o nosso. Não só na tatuagem e no desenho, mas em toda forma de manifestação de arte. Eu tocava em uma banda que flertava com a música japonesa e, várias vezes tocamos com artistas japoneses que faziam o inverso – eram fortemente influenciados pela música brasileira. Essa troca de experiência era sempre gratificante. Descobri que um violonista japonês com quem eu toquei era grande fã do trabalho de um tio meu, bandolinista. Recentemente, eu comprei um shamisen e mostrei pra um vizinho japonês e ficamos horas conversando. A arte não pode ter fronteiras. Ela é realmente a língua universal, né?

Conclusão

Thiago Halleck Banda
RE: Se alguém te dissesse que se interessa por cultura japonesa e te pedisse recomendações, o que você indicaria?
Thiago Indicaria alguns animes, algumas bandas, alguns livros de pintura e, principalmente, indicaria que lesse o :Re-vista.
RE: Por favor, indique links com informações sobre o seu trabalho.
Thiago Meu trabalho com tattoo pode ser acompanhado na minha página do Facebook:

https://www.facebook.com/thiagohalleckart

Thiago Como eu mencionei, eu também sou músico por paixão e o rock japonês é sempre uma forte influência. Pra quem quiser conhecer as bandas em que eu toco:

https://www.facebook.com/GangueMorcego

Thiago, muito obrigada!
kamira

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