Sangue, Ouro e Além: As Potências Criativas de Jun Matsui

Jun Matsui
Jun Matsui

“Eu não quero que tatuagens sejam só arte, arte, arte. A verdadeira estética da tatuagem japonesa exige arte e espírito.” Horiyoshi III

 

Xingu. Dente de tubarão. Raia. Espada. Dragão. Linha preta longa. Linha negativa expondo a pele por dentro de um bloco preto de tinta. Armas, feras, amuletos, abstrações: você não sabe qual vai ser a próxima jogada de Jun Matsui, mas você sabe que vai ser algo com a sua assinatura. E que assinatura é essa?

Jun Matsui - Skate
Jun Matsui – Skate

Jun Matsui nasceu no Recife em 1972 filho de mãe pernambucana e pai japonês, passou a infância no Mato Grosso e a adolescência em São Paulo. Começou a andar de skate aos 16 anos e corria campeonatos, mas novas circunstâncias acabaram levando-o a trabalhar como dekassegui no Japão aos 18 anos. Lá, fez vários tipos de arubaitos (bicos) até acabar indo parar num bar de um bairro badalado de Tóquio, onde conseguiria seus primeiros clientes de tatuagem. Isso foi no início da década de 90, tempo de abundância econômica e boom da cultura jovem no Japão.

Para Jun, a tatuagem acabou surgindo como alternativa de trabalho e pela aptidão natural que tinha para o desenho.  Nos trabalhos dessa época já temos a presença de temas que depois se tornaram recorrentes, como a natureza abstrata ou figurativa, animais de poder, animais do zodíaco chinês, superstições ou amuletos de proteção como dente de tubarão, dragão, entre outros. Além disso, já nessa época o artista faz uso da tinta preta e somente ela.

Esses trabalhos parecem emanar uma energia urbana e vigorosa, masculina e um tanto sombria, vitoriosa e resiliente. Tudo o que é necessário para vencer numa metrópole como Tóquio.

Jun Matsui - Koi 2006 Tokyo
Jun Matsui – Koi 2006 Tokyo

De volta para o Brasil em 2007, iniciou um novo ciclo de vida em vários níveis. Constituiu família e abriu uma loja na Galeria do Rock junto da esposa Júlia. Já tendo tido loja em Tóquio, agora Jun dá continuidade à sua marca L.U.Z. (Life Under Zen), implantando seu espírito criativo em moletons, camisetas, bonés, patches, estojos e até joias, que você encontra nesse endereço: junmatsui.com

Nessa nova fase, sua arte parece estar mais equilibrada em energia masculina, tendo mais fluidez e delicadeza, mas sem perder o impacto.

 

No estilo de Jun transparece o respeito pela história da tatuagem em harmonia com a novidade de suas linhas.

Jun Matsui - detalhe mão
Diferente da tatuagem tradicional japonesa, que é feita para ficar escondida sob o kimono, a tatuagem de Jun não tem limites.

 

Desde que voltou ao Brasil, Jun tem contribuído para a cena cultural brasileira dando entrevistas sobre seus aprendizados no Japão e seu modo de trabalhar, participando de debates, além de ter um documentário sobre sua trajetória dirigido por Andre Ferezini, e aberto sua loja na Galeria do Rock.

Além disso, ele tem promovido o intercâmbio cultural Brasil-Japão por continuar indo ao Japão regularmente e também por japoneses virem para o Brasil para se tatuarem com ele ou para aprender tatuagem com ele.

Shark Tooth - Jun Matsui
Shark Tooth

“Diz-se que os gregos eram magníficos porque nunca tentaram copiar os antigos”, diz Kakuzo Okakura no O Livro do Chá. E é isso que se percebe na arte de Jun: uma arte que não tenta copiar ninguém, embora honre os antigos mestres com muito estudo.

Vejamos como ele descreve o processo de criação do desenho do Ano do Macaco:

Jun Matsui - Ano do Macaco 2016
Jun Matsui – Ano do Macaco 2016

“O mais importante é escolher o momento certo pras coisas. Quando demoro muito pra fazer algo sempre entendo como um erro na escolha do momento e não uma questão de “bloqueio” criativo. Dizer não estar inspirado é o mesmo que dizer que você começou alguma coisa sem saber o que queria. Como acordar sem saber o porque e torcer pra alguma coisa interessante acontecer antes do dia acabar. Durante mais de 4 meses fez parte do meu cotodiano olhar para a imagem de um babuíno colada na minha parede.Vendo o macaco que estava lá e tudo mais que o tempo permitiu meus olhos verem. Quem enxerga na verdade é o cérebro. Na hora certa cortei um pedaço grande de papel, tirei minhas lapiseiras velhas preferidas do estojo, acendi a luz da mesa e toquei o papel com a ponta do grafite pela primeira vez esse ano sentindo o que sempre sinto antes de desenhar. Uma mistura de extrema auto confiança com humildade e respeito a folha em branco também sabendo que tudo não depende só da minha vontade.
O primeiro dia só serviu pra saber o quão longe eu estava do macaco. O segundo dia é sempre muito mais intenso e com um nível muito maior de atenção e foco em situações específicas. O objetivo é avançar, encontrar a entrada e não a saída. A pior coisa é tentar encontrar a saída sem saber que você nem dentro está. No terceiro dia eu sabia que estava do “lado de dentro” das coisas e desenhei, como alguém que vagueia por uma casa desconhecida, entrando em todos os cômodos. Era o final do terceiro dia, e hora de sair.No caso do macaco eu saí com a cabeça errada e no dia seguinte voltei pra tentar trocar. Mais 5 horas só na cabeça do bicho. 4 dias e mais de 40 horas de trabalho depois eu sabia que estava do “lado de fora” porque aquele pedaço de papel me devolveu toda a energia e vida que transferi pra ele enquanto desenhava.
Esse é um momento solitário e de plenitude. A ausência de dúvida é completa. No final fez sentido o Macaco ter traços que apesar de sérios ao mesmo tempo fazem o bicho parecer um brinquedo. Pegar esse bicho me custou 4 dias longe das 3 pessoas que me completam. Eu dei ele pro Nuizinho que tem só 10 meses e ficar longe dele é diferente porque no caso do bichinho a cola ainda está secando…”

Logo vemos que ele não se coloca como nenhum gênio, nenhum iluminado, mas um ser humano que desenha, um pai de família que trabalha.

Seu modo de se colocar perante a arte é como um mestre de cerimônia do chá que pode demorar horas para escolher os utensílios a serem usados, as flores e a pintura ou caligrafia a serem colocados no lugar de honra da sala de chá. Tudo isso para que a atmosfera da sala fique o mais natural possível para os convidados, um natural que vem da compreensão profunda do papel de cada objeto na cerimônia e na vida comum.

Que esse mestre não só da tatuagem como também da arte de viver a sua própria vida continue nos instigando com seus desafios.

Muiraquitã
Muiraquitã

Jun Matsui - Anel Caveira Jun Matsui - Anel Yin Yang

 

Fonte das imagens

https://www.instagram.com/junmatsui/

https://veteranskate.wordpress.com/2009/05/03/back-side-old-demos/

Livro HARI

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