Rafael Yaekashi: Por Dentro da Cena Punk Independente e do Trabalho no Japão

Rafael Yaekashi: Empreendedorismo Punk Japonês

Rafael Yaekashi: Por Dentro da Cena Punk Independente e do Trabalho no Japão

Rafael Yaekashi, do selo independente Karasu Killer, fala sobre os bastidores da cena punk/hardcore do Japão e sobre a cultura japonesa na sua vida 

Empreender seu próprio negócio e fazer parte da cena hardcore são coisas que se misturam. Os dois têm a energia do Do it yourself, faça você mesmo. Isso é para quem não se conforma com o que lhe disseram que é o certo na vida. Rafael Yaekashi (30), fundador do selo de grindcore Karasu Killer, é um nipo-brasileiro que começou a empreender na cena hardcore do Japão e agora mora no Brasil. Ele contou para gente tudo sobre as diferenças culturais entre a sociedade japonesa e a brasileira. Leia a entrevista abaixo:

Por Camila Eleuterio
Entrevista feita no dia 03/08/2015 via email

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“No Japão, tive que reaprender a

trabalhar, seguir regras, horários

rígidos, respeitar hierarquias.”

Identidade

Re-vista Quem é Rafael Yaekashi? Você pode falar um pouco da sua história?

Rafael Simples, um adolescente roqueiro do interior de Sao Paulo que viveu com a família ate os 18 anos no Brasil, seguindo seu caminho para o Japão para trabalhar em fábricas como todo dekassegui sonhador. Gastei meu primeiro salário com cartão telefônico, um baixo e um amplificador. Lá, criei um selo independente chamado Karasu Killer e tive várias bandas, uma carreira intensa. Lancei discos e conheci todo o Japão fazendo shows. Tive a oportunidade de atuar na cena underground, fazendo música, escrevendo em zines e revistas e também como fotógrafo. Sempre conciliando com o trabalho pesado em fábricas, horas e horas de zangyo (hora extra). Esse estilo de vida me levou à depressão, uma saudade imensa da minha família no Brasil. Fumava, bebia, odiava tudo e todos. No fundo do poço cheguei a pesar 150 kilos, não tinha mais esperanças de algo bom. Após uma turnê com minha banda no Brasil em 2010, resolvi mudar a minha vida. Parei de fumar (fumei por 15 anos!), adotei um estilo de vida mais saudável, perdi 60 kilos em 10 meses e, um tempo depois, me converti ao Budismo Nitiren . A vontade de retornar ao Brasil sempre existiu, mas em 2013, após 10 anos de Japão, houve um motivo decisivo que me fez largar tudo. Conheci a Isadora pela internet, hoje ela é minha esposa e tenho uma família. Estou há 2 anos no Brasil, trabalho com meu selo, continuo com uma das minhas bandas, o NEK, e ainda escrevo para uma revista de Tokyo, e outra dos EUA.

“Tive a oportunidade de atuar na cena underground, fazendo música, escrevendo em zines e revistas e também como fotógrafo. Sempre conciliando com o trabalho pesado em fábricas, horas e horas de zangyo (hora extra).”

R Como foi sua educação formal? Ela te ajudou no seu trabalho de hoje?

Rafael Venho de uma família onde minha mãe foi também meu pai, sempre estudei em escola pública, e trabalhava como office boy para meu tio desde os 13 anos. Na cidadezinha onde morava tive bons professores, fundamentais na minha formação. Desde os 15 anos gosto de ler e escrevo poesia. Assim que concluí o ensino médio, tentei ingressar na faculdade, mas a vontade de ficar independente e ajudar minha família falou mais alto e acabei abandonando. No Japão, tive que reaprender a trabalhar, seguir regras, horários rígidos, respeitar hierarquias. Foi muito difícil no começo, mas me adaptei e hoje coloco em prática na minha empresa tudo que aprendi nesses 10 anos lá.

“No Japão, tive que reaprender a trabalhar, seguir regras, horários rígidos, respeitar hierarquias.”

R Como foi a sua ida para o Japão? Quanto tempo você ficou lá e quais são as lembranças que vêm à mente quando você pensa nesse período?

Rafael Vivendo no interior onde não tinha acesso ao que combinava comigo, me sentia isolado e perdido. Sem perspectivas de um futuro aqui no Brasil, movido pela propaganda positiva, a escolha que eu tinha era ir pro Japão. Vivi lá por 10 anos, me realizei plenamente com a música como nunca poderia ter feito em qualquer outro lugar, mas tive muitos momentos obscuros. A frieza do país estranho, a rigidez das regras, a saudade de casa, isso tudo sempre esteve presente. Me sentia desprotegido num lugar que não era meu, rodeado de amigos, mas sempre sozinho.

“Vivi lá por 10 anos, me realizei plenamente com a música como nunca poderia ter feito em qualquer outro lugar, mas tive muitos momentos obscuros. A frieza do país estranho, a rigidez das regras, a saudade de casa, isso tudo sempre esteve presente.”

R Você morava em Komaki e agora mora em Santos. Quais são as diferenças e semelhanças?

Rafael São lugares completamente diferentes. Em ambas sempre morei bem localizado, mas a diferença dos serviços, facilidades, limpeza das ruas e educação das pessoas é gritante. Aqui não posso andar distraído na rua, celular escondido e bicicleta sempre trancada. Até pra atravessar o sinal verde é preciso atenção.

R Existem hábitos que você tinha no Japão e que mantém no Brasil?

Rafael Muitos!  Sempre uso as palavras obrigado, desculpe e com licença, procuro sempre manter a organização e disciplina. No trabalho com meu selo, coloco em prática o que aprendi nos empregos que tive. Sou amante de bicicleta e pedalo todos os dias assim como fazia lá. E sempre que posso saio pra comer sushi.

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Negócios

R Você começou seu próprio negócio quando estava no Japão. O que te motivou a isso?

Rafael Sim, aos 19 anos formei minha primeira banda Nomares e na mesma época, no intuito de divulgar o CD demo eu criei o selo Karasu Killer Records. Na mesma época me convidaram para tocar numa banda de heavy metal chamada Injecting Steel, eram então bandas formadas por brasileiros insatisfeitos com a cena musical da comunidade. Foi num show do Vitamin X que por acaso conheci pessoalmente o Boka (Ratos de Porão/Pecúlio Discos) de Santos. Nesse dia, de mapinha na mão, fomos até uma loja de discos, que foi a primeira que conheci de música underground no Japão. Até 2008 o Nomares permaneceu ativo na cena japonesa, teve inclusive um album lançado por uma gravadora japonesa, a East Peace Records (AICHI). Firmei minha presença na cena underground quando fui convidado pra tocar no Darge, banda formada por japoneses. Gravei alguns, compilações, tocamos na Asia e até no Brasil. Tive (e tenho ate hoje) o NEK onde sou vocalista. Um pouco antes do meu retorno ao Brasil tive 2 projetos, Crowboar (Doom) que formei com um amigo americano, e o PUNHALADA com membros do NEK e amigos. Foram 10 anos de carreira musical intensa, além das bandas e do meu selo, escrevi para zines e trabalhei na revista Doll Magazine, e ainda fotógrafo nas horas vagas.

Através do meu selo pude distribuir meu trabalho, sempre motivado por uma rica cena musical independente.

“Foi num show do Vitamin X que por acaso conheci pessoalmente o Boka (Ratos de Porão/Pecúlio Discos) de Santos. Nesse dia, de mapinha na mão, fomos até uma loja de discos, que foi a primeira que conheci de música underground no Japão.”

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R Você integra a cena punk alternativa brasileira e japonesa. Quais são as diferenças?

Rafael Minha escola é a rica cena musical japonesa, todas as minhas referências estão la. Um lugar onde todos se interessam por novidades, fazem acontecer realmente sem inveja. E tudo realmente acontece.

Divulguei muitas bandas brasileiras no Japão através do meu selo, eu queria mostrar para os japoneses o que elas estavam fazendo. Mas foi quando voltei pra cá que percebi como funciona, tudo muito lento, desorganizado, falta de estrutura, falta de incentivo e união da galera.

R Quais foram os desafios que você enfrentou ao empreender no Japão (se houveram)? Você acha que os desafios do empreendedor que mora no Japão são parecidos com os do empreendedor que mora no Brasil? (leis, tributos, logística…)

Rafael No começo eu era um selo faça-você-mesmo/do it yourself. Eu trocava materiais com outros selos, distribuía de graça e vendia alguma coisa nas banquinhas dos shows. Passei a querer distribuir para lojas e foi aí que tive a ajuda de dois selos japoneses, Too Circle Records (Tokyo) que começou distribuindo nas lojas da capital e MCR Company (Kyoto) que foi (e é ate hoje) essencial na distribuição dos meus lançamentos em todo o Japão. Essa ajuda simplificou muito o meu trabalho. No Brasil, os obstáculos são maiores. Material importado paga altas taxas, nem todas as pessoas podem dispor de dinheiro para investir em música, o correio é precário.

“No Brasil, os obstáculos são maiores. Material importado paga altas taxas, nem todas as pessoas podem dispor de dinheiro para investir em música, o correio é precário.”

R Diz-se que para ser um empreendedor bem-sucedido, é preciso saber se relacionar bem com as pessoas. Como você fazia isso no Japão? Existe alguma diferença no modo como os japoneses se relacionam? Ou algo que você teve que aprender nesse processo?

Rafael Sempre fui um membro ativo da cena, cada final de semana eu estava em um lugar diferente do Japão. Fosse pelas bandas, pelas fotografias ou pelos textos em revistas, as pessoas me conheciam, e eu sempre busquei novas amizades. Conquistei muitas apesar do jeito mais desconfiado e tímido dos japoneses.

R Uma vez ouvi alguém falar que o Japão é o único país em que um punk pede desculpas… O que você acha?

Rafael Pede desculpas, fala obrigado, tem celular de ultima geração e carro novo. Acho que as últimas gerações estão mais abertas, enquanto os punks mais antigos permanecem mais fechados.

Conclusão

R Como você aprendeu nihongo (japonês)? Pode dar alguma dica?

Rafael Eu aprendi a escrever hiragana com meus amigos de banda, pois trocava ideia com eles todos os dias, e como eu trabalhava na fábrica eu usava o keitai (celular) escondido, aí digitar o hiragana era bem mais fácil do que digitar letra por letra! Em 2006 eu usava os foma da Docomo!!! Parece bobo mas foi assim que aprendi falar nihongo! Assim como me interessar pelas letras das musicas! A musica em geral me motivou!

R Se alguém te dissesse que se interessa por cultura japonesa e te pedisse recomendações sobre por onde começar, o que você indicaria?

Rafael Culinária! Foi algo que demorei muito para amar e hoje eu sou um verdadeiro dependente e amante dessa culinária maravilhosa!

R Muito obrigada, Rafael! Por favor, deixe seus contatos!

Rafael Eu que agradeço Camila! Obrigado pela oportunidade de poder contar minha experiência do outro lado do mundo!

 

KARASU KILLER RECORDS

Mailorder/ Distribution / Record Label

Brasil – 日本 – USA

Independente e Extremo desde 2003

http://www.karasukiller.com 

http://store.karasukiller.com 

http://www.givepraiserecords.com

http://www.noisereduction-zine.com

http://www.absurdgrind.net


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kamira

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