ProfªMichiko Okano: Olhar Aberto Para Uma Cultura Japonesa Revista

Michiko Okano no Workshop da Getty Foundation
Michiko no Workshop da Getty Foundation
MICHIKO 5 anos em Tokyo
Michiko Okano aos 5 anos em Tokyo

Ela ensinou japonês por muitos anos na Aliança Cultural Brasil-Japão e foi assessora cultural sênior da Fundação Japão por muito tempo também. Poderia se dizer que ela divulga a cultura japonesa há anos. Mas o que ela divulga e inspira principalmente é o encantamento que vem de descobrirmos a arte, o pensamento e as contradições inerentes à própria espécie humana.  Estamos falando da professora de História da Arte da Ásia da Unifesp, a drª Michiko Okano.

Professora Michiko Okano foto Karina Takiguti
Professora Michiko Okano em ação. Foto: Karina Takiguti

:RE-vista Quem é Michiko Okano? Você pode falar um pouco sobre você? (Se possível falar sobre o significado dos ideogramas do seu nome também)

Província de Hokkaido (em vermelho)

Michiko “Michiko” escreve-se 道子 (Michi+Ko) em ideograma e não 美智子 (Mi (bonita)+ Chi (inteligente)+ Ko (filha)) como se escreve o nome da Imperatriz do Japão. Escreve-se 道子 porque nasci em 北海道 Hokkaidô (norte+mar+caminho). Todavia, , além da semântica de caminho, significa o caminho metafórico da arte, como se pode verificar no segundo ideograma dos vocábulos  茶道 sadô (cerimônia do chá)、柔道 judô、花道 kadô (arranjos florais, também chamado de ikebana)、合気道 (aikidô), etc. E assim, acredito que o meu nome dialoga bem com a minha atual profissão: professora de História da Arte da Ásia na Unifesp.

Sou japonesa e vim para cá criança, o que me faz ser metade japonesa e metade brasileira. A minha tese de doutorado é sobre o entre-espaço Ma , lugar este que habitei desde os meus oito anos – a espacialidade de intermediação entre o Brasil e o Japão.  Acredito que  viver nesse entre-espaço facilita obter uma visão ora interna ora externa à cultura japonesa, é como se sentir pertencendo aqui e lá e simultaneamente estrangeira nos dois países, contudo, é um facilitador para a minha função de estudar e ensinar a arte e cultura japonesa.

Professora e curadora Michiko Okano - livro
Tese de doutorado da profª Michiko publicada pela Annablume em 2012

:RE-vista Você nasceu em Hokkaido. Como aconteceu a sua vinda para o Brasil?

Michiko O meu pai foi enviado pela Jiji Press, onde ele trabalhava, para Buenos Aires, Argentina, e lá ficou por dois anos. Voltou para o Japão, pediu demissão e imigrou para o Brasil. E, consequentemente, me trouxe junto.

:RE-vista Como foi a sua educação formal? Em que tipo de escola estudou? Foi uma época importante para você?

Michiko Estudei o jardim da infância e o primeiro ano primário no Japão. Foi uma época que aprendi um pouco do “ser japonês”, limpando a sala após a aula, servindo almoço para os colegas, por exemplo. Chegando ao Brasil, fui para Taishô Gakkô que era uma escola que ensinava português em japonês, necessária para a fase de adaptação. Não entendia nada de português. No terceiro ano primário fui para Escola Estadual Gomes Cardim. Lembro que na primeira vez que escrevi uma redação e a minha professora me disse: não entendi nada do que você escreveu. Foi um ano muito difícil…decorava tudo, porque não entendia, mas me esforçava muito para, alguns anos mais tarde, ser a primeira aluna da classe. Fui depois para o Colégio São Paulo e me senti em casa porque havia muitos orientais, onde consegui fazer amizade com coreanas, chinesas, japonesas e mantenho amizade com algumas delas até hoje. Entrei depois na FAU-USP onde fiz a minha graduação.  E mais tarde, mestrado e doutorado na Comunicação e Semiótica da PUC-SP.

Michiko Okano
Michiko numa reunião com James Kudo e César Nakashima

:RE-vista Desde sua vinda definitiva para o Brasil, você já voltou para o Japão diversas vezes, não é? Poderia comentar sobre as coisas do Japão que você sente falta e as que não sente falta quando volta para o Brasil? E poderia comentar sobre as do Brasil que sente falta e as que não sente falta quando está no Japão?

Michiko A coisa que mais sinto falta do Japão no Brasil é o profissionalismo, é a maneira delicada e eficiente de atendimento – as vendedoras não ficam como aqui, conversando entre si. Acho que falta a educação e a disciplina – ninguém fura a fila nem joga nada no chão, e deixa a pia do banheiro limpa pensando no próximo que vai usufruir… 

Na vida privada, o que mais me faz falta é o banheiro estilo japonês, com assento quentinho, ducha, ventinho e descarga automática…

Em relação ao Japão, sinto falta do calor humano, do humor típico dos brasileiros, da coisa descontraída, da característica híbrida que é o povo brasileiro. Quando vou ao território nipônico e vejo aquela monte de gente, todos com olhos puxados, me dá um arrepio e tenho vontade de fugir… até passar uns dias e me acostumar.

Michiko Okano dançando
Michiko também dança

:RE-vista Dentre os diversos temas que você pesquisa, a ocidentalização do Japão está entre eles. Você poderia falar sobre como as artes eram vistas pelos japoneses antes do período Meiji?

Michiko A Era Meiji (1868-1912) foi um período em que o Japão abriu as portas para o Ocidente após mais de dois séculos de isolamento. E essa abertura deu-se com uma intensa exaltação da civilização ocidental, quando se adotou a sua visão artística, dividindo a arte em belas artes e arte aplicada, com uma depreciação deste último. A arte japonesa antes da ocidentalização era compreendida de modo amplo, na qual eram inseridas as artes do dô (kadô, sadô, judô, etc), as artes teatrais, musicais, etc. Quem estiver interessado no assunto, tenho um artigo na academia.edu chamado Bijutsu (Belas Artes): o símbolo da história da ocidentalização do Japão.

:RE-vista As origens das histórias em quadrinhos ocidentais estão ligadas à sátira social e política. O mesmo pode se dizer das origens do mangá?

Michiko O formato do mangá, isto é, a inserção do espaço e tempo de modo a contar uma narrativa é bastante antiga, podendo ser vista em miniatura de um templo Tamamushi-no zushi preservado em Nara. Numa das faces dessa construção existe uma pintura do Shakyamuni se jogando do vale para oferecer o seu corpo aos tigres famintos que estavam em baixo.

 A conjunção da linguagem verbal e imagem pode ser vista também nos sutras budistas na Era Nara (710- 794): o que era apenas texto naquelas escritas chinesas, recebeu o acréscimo de imagem na versão japonesa. Assim, como forma, é algo que tem uma origem bastante remota e não à toa, o Japão é o país que mais e melhor desenvolveu esse estilo de narrativa em desenho. 

Pintura do templo Tamamushi retratando Shakyamuni Buda se sacrificando para alimentar tigresa e seus filhotes

:RE-vista Em uma aula sua, você comentou sobre o fenômeno na sociedade japonesa atual dos homens que não se interessam por sexo. Outro dia, ouvi falar que algumas mulheres japonesas têm frequentado clubes de strip-tease para ver a apresentação de outras mulheres porque elas acham isso sexy e legal. Há duzentos anos, no período Edo, a atividade sexual de homens e mulheres era retratada com alegria em ukiyo-e e outros tipos de arte. Ao meu ver, parece que essa alegria se perdeu. Como historiadora da arte japonesa, como você vê isso?

Muitos  homens no Japão não se interessam por sexo, são os chamados 菜食男子 saishokusanshi (homens herbívoros). Muitos casais japoneses não têm relação sexual. Acredito que algo está errado na sociedade  japonesa. É oportuno lembrar dos outros problemas sociais que o Japão enfrenta: hikikomori (pessoas que ficam confinados dentro da casa, com conexão virtual),  ijime (bullying), alto índice de suicídio,  pessoas que matam sem motivo aparente, etc. A ocidentalização, sobretudo as alterações exigidas pela ocupação americana pós II Guerra Mundial trouxe um modo de ver e viver o mundo – e está aí a alteração da conduta em relação ao sexo – cuja consequência pode ser vista na sociedade atual.

Nisso se inclui o forçado apagamento de certas memórias e uma mudança radical de comportamento.

Hikikomori

:RE-vista Existe uma arte japonesa política, questionadora? Quando penso sobre o que diferencia arte de artesanato, acho que o principal é que o artesanato não é questionador e a arte sim. Mas acho que estou olhando com olhos ocidentais. O que você acha?

Sim, existe uma arte japonesa política e questionadora. Veja, por exemplo, as obras de Yuken Teruya (1973-) que faz escultura de árvore em sacolas de McDonald’s, recortando-a, levando em discussão a questão ecológica (papel/árvore) mas também a sociedade de consumo representada por essa empresa. Ou You-I You-I em que faz pintura muito similar ao tingimento Bingata, típico de Okinawa, mas ao olhar atentamente, tem aviões e paraquedas com homens armados, denunciando a intervenção americana na região.  O artesanato, pela sua característica funcional e/ou decorativa não é questionador, você tem razão, mas também existe arte que não possui essa característica.

Yuken Teruya
Yuken Teruya
Yuken Teruya
Yuken Teruya

:RE-vista Você é curadora da exposição Olhar Incomum: Japão Revisitado no MON – Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Essa exposição chama a atenção por abarcar diversos tipos de arte, desde as mais tradicionais até mais contemporâneas como o grafite. Você pode comentar essa escolha?

Michiko Okano na montagem Exposição MON
Michiko Okano na montagem Exposição MON

Estabeleci dois eixos para pensar a exposição. O primeiro é a pergunta “o que é um artista nipo-brasileiro?” e o segundo é a compreensão ampla da arte antes da ocidentalização japonesa, todos eles unidos pela visão da arte contemporânea.

Sobre a primeira questão, é importante considerar que o artista nipo-brasileiro compreende uma variedade de gerações: os japoneses pré-guerra, os japoneses pós-guerra, os descendentes de segunda e terceira geração. A exposição privilegiou os artistas japoneses chegados nas últimas décadas ao Brasil, e os descendentes. O que a exposição tenta mostrar é a variedade que compõe esse termo “nipo-brasileiro”: cada artista possui uma singularidade, regida pelas suas experiências de vida.

Em relação à ampla compreensão da arte, incluímos esculturas, instalações, pinturas, laca, música, poesia, caligrafia japonesa, performance de cerimônia do chá reinterpretada e grafite, ampliando fronteiras do significado da arte. A exposição foi inaugurada no dia 16 de março e vai até 26 de junho de 2016.

Michiko Okano em mediação no MON
Michiko Okano em mediação no MON

:RE-vista Para encerrar, gostaria de pedir alguma dica sua para alguém que está começando a se interessar por língua e cultura japonesa. Para você, qual seria a melhor maneira de se aventurar nesse universo?

Acredito que existam muitas portas para se adentrar um universo cultural: seja ela pela língua, literatura, cultura, mangá, arte, etc. O importante é essa paixão que move a procurar essa aventura nipônica que pode estar conectada à busca de um complemento, do outro ou ainda, sem motivo aparente. Afinal, a gente nunca sabe por que é que apaixonamos por um certo objeto, ato ou sujejto. Para deixar acesa a paixão é necessário alimentá-la, ora fazendo aulas, ora fazendo leituras, pesquisas, frequentando cinema, teatro, convivendo com pessoas  e situações interessantes que possam abrir horizontes, etc.

michiko okano yayoi kusama naoshima www.projetorevista.com.br entrevista
Michiko em Naoshima ao lado de obra de Yayoi Kusama

Se você gostou deste artigo, compartilhe-o com seus amigos. Dessa maneira você me incentiva a escrever mais. Obrigada!

Comments

comments

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*