Um Rosto Que Não Se Mostra: Japão e A Religiosidade Japonesa Múltipla

Buda de Kamakura Japão Onomatopeias Pensamento japonês
“Kamakura no Butsu
Os homens se esforçam No frio, para aquecer-se…
E Buda sorri…”
João Batista Dubieux in Haikai

“Os mitos são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano, e os mesmos poderes que animam nossa vida animam a vida do mundo.” Joseph Campbell in O Poder do Mito

Introdução

 

Este trabalho constitui-se de algumas idéias elaboradas a partir da obra “O Pensamento Japonês” do Dr Oshima Hiroshi contrapostas à filosofia do mitólogo norte-americano Joseph Campbell (1904 – 1987), do filósofo chinês Chuang Tzu (369 AC – 286 AC) e da estética do escritor japonês Tanizaki Jun ́Ichirô (1886 – 1965) e da crítica de arte norte- americana Camille Paglia (1947 – ).

 

Nota: os nome japoneses são escritos aqui segundo o costume nipônico de sobrenome seguido de nome.

Natureza Japao Interior

Segundo Oshima, o pensamento japonês iniciou-se com uma mentalidade mítica, primórdio do xintoísmo. Essa mentalidade tomou uma forma concreta com a compilação de lendas Kojiki (Recordações dos acontecimentos antigos) no ano de 712. Essencialmente agrária, a sociedade japonesa via nos fenômenos naturais a sua única realidade. Característica das religiões animistas, seus deuses podiam ser tanto sentimentos humanos quanto seres vivos ou objetos inanimados. A natureza é vista como um pri
ncípio vital pessoal, uma alma. Cada princípio de vida contém um universo ao mesmo tempo em que integra um mundo maior. E daí vem a máxima do pensamento japonês “o uno é múltiplo e o múltiplo é uno”. Sem um deus absoluto, a mentalidade mítica avançou os tempos carregando uma concepção de “uma contínua criação espontânea, com certa analogia com o crescimento dos vegetais.”(OSHIMA, P. 28) Nesse animismo inconsciente, que mais tarde seria chamado de Shinto ou xintoísmo, “o tempo não existe senão no modo presente, e o passado e o futuro são apenas invenções da nossa imaginação, são irreais.” (OSHIMA, P.132, via Kobayashi Hideo). Na ciência ocidental, o grego Heráclito desenvolveu idéias semelhantes, embora estas só tenham sido retomadas por físicos do século XX: People like us, who believe in physics, know that the distinction between past, present, and future is only a stubbornly persistent illusion. (EINSTEIN, citado por Michio Kaku em Hyperspace – A Scientific Odyssey Throu
gh Parallel Universes, Time Warps, and the 10th Dimension). Distinção entre passado, presente e futuro e/ou distinção de indivíduos é um conceito relativamente moderno no Japão. No século XI, por exemplo, a rígida hierarquia definia o nome e a função das pessoas. Não se sabe o nome verdadeiro da maior escritora japonesa, Murasaki Shikibu, (C.973-C. 1014), mas se sabe que shikibu era o cargo que seu pai ocupava na corte, enquanto que murasaki (roxo) viria de um personagem do grande romance que ela escreveu, Genji Monogatari.

 

 

Indeterminação, sombra, frases pela metade. Camille Paglia disse: Donald Keene says Japanese sentences “trail off into thin smoke”, a vapor of hanging particles. In other words, Japanese sentences avoid closure.(PAGLIA, P. 172). E a língua é a expressão mais clara do pensamento de um povo. Japoneses raramente manifestam os seus sentimentos, ou às vezes deixam-nos subentendidos. “Kao ga denai” é a expressão que denota tal, literalmente “o rosto não sai”. O semblante, em tais situações, assemelha-se à uma máscara de Nô, pois é imóvel, liso, de linhas delicadas. O sorriso é particularmente díspar do ocidental. Piscam os olhos e semi-abrem a boca, repleta de um negro vácuo que circunda os pequenos dentes amarelados e manchados, dando a impressão de sorver todo o ambiente para alguma região atemporal e desconhecida. Tanizaki Jun ́Ichirô colocou as sombras em lugar de honra na estética japonesa. Para ele, elas se espalham pelos objetos, cômodos e, até pelo seu povo. Disse em sua obra In Praise of Shadows, a respeito de um baile de gala realizado no Japão com japoneses e estrangeiros:

Among the Japanese were ladies who were dressed in gowns no less splendid than the foreigners ́, and whose skin was whiter than theirs. Yet across the room these ladies, even one alone, would stand out unmistakably from amongst a group of foreigners. For the Japanese complexion, no matter how white, is tinged by a slight cloudiness. P. 49

 

Cloudiness. Enevoado, mistério. Camille Paglia chama de apolínea toda estética que é voltada para a precisão, a luz, as linhas retas. O arquiteto Charles Moore cita Louis Kahn no prefácio de In Praise of Shadows: In the West our most powerful ally is light. ‘The sun never knew how wonderful it was’, the architect Louis Kahn said, ‘until it fell on the wall of a building’. (P. I) Definição é o mote ocidental, indistinção o oriental. Em seu livro de estréia, Sexual Personae – art and decadence from Nefertiti to Emily Dickinson, Camille Paglia diz que os ocidentais buscam limitar a natureza, enquanto os orientais buscam a submissão à ela:

Name and person are part of the west ́s quest for form. The west insists on the discrete identity of objects. To name is to know; to know is to control(…). Far Eastern culture has never striven against nature in this way. Compliance, not confrontation is its rule. P.5

 

Na época de Shakespeare, as pessoas iam ao teatro mais para ouvir suas peças. do que para ver, pois a iluminação era escassa e não havia outra opção. Mas no Japão de hoje, sentimos que a iluminação é pouca, apesar de toda tecnologia contemporânea. Essa característica oposta ao ocidente é refletida na linguagem, repleta de expressões vagas ou de termos vindos de sons e barulhos. A língua japonesa é baseada no que se ouve. Possui um alentado volume de onomatopéias 擬音語 (guiongô) para expressar todo tipo de fenômenos: os naturais 雨がざあざあ(Ame ga aza zaa/Está chovendo forte); emotivos: どきどきする(Doki doki suru/Estar apaixonado, com o coração batendo forte), sensitivos ぴりぴりする (Piripiri suru/Estar ardendo) e até dispositivos eletrônicos 携帯がぷるぷる((Keitai ga purupuru/O celular está tocando). Pensamos que as onomatopéias são sinais de que o primitivismo ainda permeia a sociedade japonesa. Mas também identificamos sinais de um estoicismo presente em sociedades avançadas como a alemã e a inglesa. É caso de situações em que os japoneses se sentem sozinhos e murmuram repetidamente 寂しい (Sabishii) enquanto seus rostos apresentam bem menos desespero do que um ocidental, principalmente norte ou latino- americano faria. Como ilustração, recomendamos o filme Chuva Negra (1989, dir.: Imamura Shohei).

Taoismo Projeto Revista

Civilização moderna, Budismo e Taoísmo

A civilização moderna expande a consciência e as neuroses se multiplicam. Se antes tínhamos problemas com as rédeas da religião e da família, atualmente é a consciência o nosso maior entrave. O estudioso Kobayashi Hideo critica a civilização moderna por “ter organizado o pensamento e o conhecimento humanos; por ter oprimido, assim, o campo silvestre do espírito humano.” (OSHIMA, P.131) Motoori Norinaga já dissera no século XVIII que “a razão não é essencial ao homem; antes, é produto de certas circunstâncias históricas infelizes, das quais nasce uma mútua desconfiança e uma necessidade de autodefesa.” (OSHIMA, P.86) Concordamos que tal artificialidade tenha nascido da desconfiança mútua, mas uma vez chegado este ponto, não há como voltar ao estado natural e perfeito pregado pelos anti-racionalistas. Um estado natural é impossível, uma vez que o ser humano adquiriu consciência. Milhares de anos de evolução humana são descartados por uma utopia intelectual. Para a pureza do espírito humano, existe a possibilidade da iluminação, que é um estado para além do natural humano. Hoje, a arte e a religião podem nos encaminhar para tal. Joseph Campbell disse:

“Cada um de nós tem a possibilidade do êxtase em sua experiência de vida. O que é preciso fazer é reconhecê-lo, cultivá-lo e seguir em frente. (…) A arte e a religião são dois caminhos conhecidos (para a iluminação). Não creio que você o consiga através da pura filosofia acadêmica, que amarra tudo em conceitos.” (CAMPBELL, P. 173)

Como Campbell, acreditamos que tanto para japoneses quanto para qualquer ser humano, o ideal é que se persiga sua bem-aventurança, sendo aquela atividade que mais lhe realiza como pessoa. A bem-aventurança pode ser tanto a profissão de açougueiro quanto de monge, professor, etc. O importante é que, quando a pessoa realize tal atividade, se sinta absorta nela. Transcrevemos Destrinchando Um Boi, um conto do taoísta Chuang Tzu:

“O cozinheiro do Príncipe Wen Hui estava destrinchando um boi. Lá se foi uma pata, pronto, um quarto dianteiro, ele apertou com um dos joelhos, o boi partiu-se em pedaços. Com um sussurro, a machadinha murmurou como um vento suave. Ritmo! Tempo! Como uma dança sagrada, como “a floresta de arbustos”. Como antigas harmonias!“Bom trabalho!” exclamou o Príncipe, “seu método é sem falhas!”. “Método?, disse-lhe o cozinheiro afastando a sua machadinha, “O que eu sigo é o Tao, acima de todos os métodos! Quando primeiro comecei a destrinchar bois via diante de mim o boi inteiro, tudo num único bloco. Depois de três anos nunca mais vi este bloco, via as suas distinções. Mas, agora, nada vejo com os olhos. Todo o meu ser apreende. Meus sentidos são preguiçosos. O espírito livre para operar sem planos segue o seu próprio instinto guiado pela linha natural, pela secreta abertura, pelo espaço oculto, minha machadinha descobre o seu caminho. Não corto nenhuma articulação, não esfacelo nenhum osso. Todo bom cozinheiro precisa de um novo facão, uma vez por ano – ele corta. Todo cozinheiro medíocre precisa de um novo cada mês – ele estraçalha! Eu uso a mesma machadinha há dezenove anos. Cortou mil bois. Sua lâmina é fina como se tivesse sido afiada há pouco. Não há espaços nas articulações; a lâmina é fina e afiada: quando sua espessura encontra aquele espaço lá você encontrará todo o espaço de que precisava! Ela corta como uma brisa! Por isso tenho esta machadinha há 19 anos como se fora afiada há pouco! Realmente, há, às vezes, duras articulações. Vejo-as aparecendo, vou devagar, olho de perto, seguro a machadinha atrás, quase que não movo a lâmina,e vapt!, a parte cai como um pedaço de terra. Então retiro a lâmina, fico de pé, imóvel, e deixo que a alegria do trabalho penetre. Limpo a lâmina e ponho-a de lado.” (MERTON, P. 78)

 

Absorção e envolvimento são prezados nas artes japonesas que possuem a credencial “dô” 道, caminho. Cerimônia do chá, caligrafia, artes marciais. Citemos um trecho de Morihei Ueshiba, grã-mestre da arte marcial Aikido:

As técnicas do Aikido mudam constantemente; cada encontro é único e a resposta deverá aparecer naturalmente. As técnicas de hoje serão diferentes amanhã. Não fique preso à forma e à aparência. E, por fim, você deve se esquecer da técnica. (STEVENS,P. 26)

 

Apesar de alguns estudiosos adeptos do etnocentrismo negarem o taoísmo como doutrina para o povo japonês, consideramos tal conjunto de pensamentos como um complemento, alimentando o budismo, confucionismo e a mentalidade mítica japoneses.

Oposto ao irracionalismo do pensamento mítico, o budismo foi introduzido no Japão através da corrente Mahayana, que tem como idéia principal o “vazio”. Ele ensina “a considerar os fenômenos vazios de significado real” enquanto que “a mentalidade mítica nos leva justamente a um mundo no qual não há nenhum fenômeno sem sentido, sem significado.” (OSHIMA, P. 36) Oshima coloca o budismo distante da mentalidade japonesa, onde não há contradição nem negação. Mestre Shinran, no século XIII, buscou um budismo que se baseasse na consciência do indivíduo. Ele disse:

Somente a fé nos salvará, uma vez que é impossível adivinhar a intenção de Amida (o Buda da Misericórdia), pois se encontra além do nosso entendimento. O bem, o mal, a verdade, a falsidade, etc., são conceitos que nos impedem de entrar diretamente na fé.” (P. 43)

 

Encontramos um paralelo em Chuang Tzu:

“ ‘O bem’ pregado e teorizado pelo moralista torna-se, assim, um mal, e isso levado a um extremo cada vez maior, porque a busca desenfreada do bem desvia-o do bem verdadeiro, que já possuímos dentro de nós mesmos, e que, agora, abandonamos ou
ignoramos.” (MERTON, Thomas, P. 39)

 

Oshima diz que o budismo dista da mentalidade mítica, mas as colocações acima não formalizam um irracionalismo, um estado natural de benevolência que o ser humano perde com a tomada de consciência? E a mentalidade mítica honra os fenômenos, o não- pensar.

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Conclusão

Fenômenos, transitoriedade. Nada é definido. O Japão é um rosto que não se mostra e só podemos entendê-lo estando lá. Um entendimento que não é racional, mas sensorial. Imbuídos de ambigüidade, os japoneses elevaram-na à sua máxima potência. Não há eliminação, ou cortes incisivos como no Ocidente, mas suaves transições. Há situações em que seus diálogos não têm lógica. Ou melhor, têm uma lógica de contrariedade. Eles são capazes de proibir algo sorrindo e pedindo desculpas. Ou pedir desculpas encarecidamente enquanto continuam cometendo o mesmo erro. Curiosamente, esse recurso é o approach moderno de estudos norte-americanos de interpretação teatral. Seriam os japoneses artistas natos? O fato é que a alma japonesa estende-se por caminhos inesperados, suscitando múltiplas interpretações.


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kamira

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