Thais Ueda e Yumi Takatsuka: Artistas Traçam Rede de Influências no Livro Batoquim

Thais Ueda e Yumi Takatsuka (Foto: Nino Andres)

 

Em setembro passado, as artistas plásticas Thais Ueda e Yumi Takatsuka lançaram o livro Batoquim – Um Conto Oriental, através da editora Lote 42 e nós aproveitamos a ocasião para bater um papo sobre cultura japonesa e brasileira, família, arte e o livro Batoquim, claro.

A entrevista foi feita por email, separadamente. Confira abaixo:

Camila Eleuterio

Identidades

RE-vista Por favor, falem um pouco sobre vocês duas e sobre como vocês se conheceram.

Thais Sou descendente de japoneses, nascida em SP. Sou artista plástica e ilustradora. Nos conhecemos numa festa. Vi a Yumi sentada e achei que era japonesa do Japão. Fiquei com vontade de conversar com ela para tentar praticar meu japonês.

Yumi Nos conhecemos numa festa, e como nós duas somos artistas, e sabemos da cultura japonesa, fizemos amizade com muita facilidade.

RE: Vocês falam japonês, né? O que acham fácil de aprender e o que acham difícil nessa língua?

Thais Acho difícil vocabulário, pois não tem nenhuma relação com português ou inglês, mas por outro lado se você entende kanjis, eles já te dão alguma idéia do significado da palavra. Saber pronunciar alguma palavra em inglês de forma japonesa também ajuda naqueles momentos que vc não sabe a palavra exata.

Yumi Como eu sou japonesa que fui criada no Japão, consigo falar japonês sem dificuldade. Mas falar português é mais difícil para mim, continuo aprendendo…

RE: Vocês se interessam por anime e mangá também? Se sim, quais?

Thais Não tenho muito interesse por mangá embora ache os desenhos muito bonitos, e anime gosto muito de Samurai Champloo e todos os que o Shinichiro Watanabe está envolvido 🙂

Yumi Sim, quando era jovem lia muito mangá e assistia anime, mas agora só de vez em quando.

RE: Como suas famílias reagiram ao fato de terem se tornado artistas? Falaram algo do tipo “ah, filha, vai ser médica…” ou foi tranquilo?

Thais Ueda Painel Tsuru Entrevista Projeto Revista
Painel feito por Thais Ueda

Thais Minha mãe não deixou eu prestar faculdade de artes plásticas, eu queria prestar na ECA, foi um misto de achar a USP perigosa (sempre escutamos noticias de violência) e também por achar que “não era profissão”, mas hoje ela me apóia muito, está sempre antenada nas notícias quando escuta algo sobre arte.

Yumi No meu caso, os meus pais sempre me apoiaram. Quando eu tinha 16 anos queria ser a maquiadora de efeito especial para cinema, mas meu pai me falou que se eu quisesse, era melhor estudar arte primeiro, depois podia me tornar maquiadora de filme… E acabei gostando mais da arte (pintura).

RE: Você acha que os valores japoneses são diferentes dos valores da sociedade brasileira?

Thais Neste momento a sociedade brasileira está bastante perdida nos valores, fico assustada com tanta intolerância e ignorância. Nesse sentido, acredito que seja bem diferente sim.

Yumi No Japão, é difícil você ser valorizada quando é muito diferente dos outros. Os brasileiros valorizam mais a personalidade.

Yumi Takatsuka Artista Livro Arte Japonesa Livro Batoquim Lote 42 Banca Tatuí Projeto Revista
Yumi Takatsuka (Arquivo pessoal)

RE: Vocês duas têm filhos. Vocês buscam dar algum tipo de educação “cultural”, mostrando as coisas que vocês gostavam quando crianças?

Thais Sim, gosto muito de passar desenhos japoneses no original para minhas filhas, elas só pelas ações e expressões conseguem entender o que está acontecendo. Algumas palavras como ‘Itadakimasu’ antes de comer, ‘oyasumi’ para dormir elas sabem falar.

Yumi Cultura japonesa e algumas cerimônias e etiqueta, eu pretendo ensinar para meu filho, mas não muito tradicional. Mais com o meu jeito mesmo.

RE: Gostaria que vocês comentassem o que acham sobre a relação entre homens e mulheres na sociedade japonesa. É diferente das relações brasileiras? Por exemplo, paixão, ciúmes, ambição, carreira, divisão de trabalho, paternidade/maternidade, sexualidade…

Thais Penso que seja mais difícil encontrar mães solteiras que trabalham no Japão, acho que elas tendem a aguentar mais o casamento, e aqui no Brasil penso que elas engravidam muito novas e não têm muita informação.

Yumi Talvez os brasileiros mostrem mais os sentimentos e sempre deixam muito claros a alegria, raiva, ciúmes etc. Os japoneses não demostram muito seus sentimentos facilmente.

Trabalho Artístico e o Livro Batoquim

Livro Batoquim (Foto: George Leoni)
Livro Batoquim (Foto: George Leoni)

RE: Vocês acabaram de lançar o livro Batoquim – Um Conto Oriental. Podem falar sobre ele?

Thais Adorei fazer esse trabalho com a Yumi, foi uma sinergia boa, conseguimos discutir todas as questões de forma sempre positiva, sem conflitos – o que é muito comum quando se trabalha em parceria.

Yumi É um conto oral da Mongólia que é muito conhecido no Japão. Fala da lenda de como nasceu o instrumento mongoliano BATOQUIM. Uma história muito linda e que toca nos corações.

Thais Ueda Yumi Takatsuka Livro Batoquim Entrevista Revista Língua Cultura Japonesa 2015

RE: O que levou vocês a escolherem esse conto para trabalhar?

Thais Eu gostava muito das histórias de Marco Polo, Kublai Khan, essa coisa da Mongólia. Conheci dois estudantes da Mongólia no Japão, com quem convivi por 8 meses. Eles sempre me contavam sobre o país deles e eles que me apresentaram esse conto. Voltei para o Brasil com ele na cabeça.

Yumi Nós queríamos fazer algum projeto juntas, e encontramos um assunto comum que era Mongólia.

Originais do Batoquim (Foto: Nino Andres)
Originais do Batoquim (Foto: Nino Andres)

 

RE: Dá para se dizer que os valores sociais dos japoneses e dos mongóis são parecidos?

Thais Para mim, que nasci e cresci no Brasil, vejo um abismo entre cultura oriental e ocidental, então para mim são parecidos – é minha opinião de forma um pouco generalista. não tenho grandes conhecimentos para poder opinar….

Yumi Quando visitei a Mongólia pela primeira vez, senti uma sensação que já conhecia, senti um certo sentimento de saudade nesse país. Talvez valores sociais dos japoneses antigos e mongóis eram parecidos. Mas hoje em dia não são mais parecidos.

RE: Você trabalham como artistas plásticas e designers. Tem algum tema japonês que mais interessa vocês? E que vem às suas cabeças quando ouvem o termo “arte japonesa”?

Buto Kazuo Ohno Projeto Revista Thais Ueda
Kazuo Ohno, criador do Butô

Thais Adoro design japonês dos anos 70 como Yusaku Kamekura, Tadanori Yokoo, Ikko Tanaka, etc e tenho grande interesse pelo Butô. O que vem à minha cabeça com o termo “arte japonesa” é um misto de arte tradicional do sumiê e gravuras com a arte mais pop contemporânea. O Japão acho que sabe conciliar muito bem o tradicional com contemporâneo, ao contrário do Brasil. Não vejo grandes artistas fazendo referências ao Barroco por exemplo.

Yumi Pintura japonesa e xilogravura japonesa com técnica tradicional.

katsushika hokusai the-waterfall-of-amida-behind-the-kiso-road
Katsushika Hokusai – The Waterfall of Amida Behind the Kiso Road

RE: Fazem alguma pesquisa de material ou técnicas artísticas japonesas?

Thais Estudei shodô (caligrafia japonesa) por um tempo e acho que tem grande influencia sobre meu traço.

Yumi  Aprendi um pouco de xilogravura japonesa com técnica tradicional .

RE: Qual é a primeira lembrança da arte nas suas vidas?

Thais acho que a grande referencia de artes foi a 23ª bienal de SP, quando comecei a frequentar assiduamente as exposições.

Yumi Desde criança, gostava de participar das aulas de artes na escola.

RE: É possível viver de arte no Japão? E no Brasil? Podem dar alguma dica para quem quer viver de arte?

Thais Ueda Lançamento Batoquim Lote 42 Yumi Takatsuka Projeto Revista Assinando
Thais Ueda (Foto: Nino Andres)

Thais É possível sim mas entendendo num campo ampliado, isto é, não apenas produzindo obras, mas escrevendo projetos, dando aulas/workshops/seminários, realizando pesquisas, etc

Yumi É possível viver de arte no Japão, sim, mas não é nada fácil. Aqui no Brasil tem mais chance e movimento de arte.

RE: O que vocês gostam de fazer quando vão ao Japão?

Thais Andar de bicicleta e trem!!!

Yumi Passar o tempo com a minha família, rever minhas amigas e comer a comida japonesa !

RE: O que os artistas brasileiros podem ensinar para os japoneses?

Thais acho que pela economia brasileira ser mais instável, tanto os artistas quanto profissionais de outras áreas precisam se articular mais para se virar em épocas de crise. acho que nesses momentos o networking é importante e vejo muitos artistas brasileiros fazendo isso.

Yumi Podem ensinar que não precisa ficar muito preso só na técnica, e expressar mais sem medo.

Thais Ueda e Yumi Takatsuka (Foto: Nino Andres)
Thais Ueda e Yumi Takatsuka (Foto: Nino Andres)

 

Conclusão

Thais Ueda Yumi Takatsuka Livro Batoquim Mongólia Projeto Revista Língua Cultura Japonesa

RE: Se alguém dissesse a vocês que se interessa por cultura japonesa e pedisse recomendações, o que vocês indicariam?

Thais Encontre o que mais você se identifica e comece por ele, pode ser por culinária, cinema, é sempre a ponta de um iceberg: quando você vê está totalmente tomado e envolvido e acaba indo conhecer mais.

Yumi Buscar experimentar as tradicionais comidas do Japão.

RE: Digam suas palavras preferidas da língua japonesa, por favor.

Thais Adoro a palavra KI de energia e OTSUKARESAMADESHITA como agradecimento por um dia de trabalho.

Yumi Arigatou.  ^ ^

RE: Por favor, indiquem links com informações sobre o seu trabalho.

Thais instagram @thaisueda e www.cargocollective.com/thaisueda

Yumi instagram  @yumitakatsuka

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O livro Batoquim pode ser comprado pelo site da Banca Tatuí: http://www.bancatatui.com.br/categorias/livros/batoquim/

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Muito obrigada pela entrevista, Thais e Yumi!

 


 

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